Observatório Internacional em Colonialismo Digital
O observatório nasceu antes do projeto. Nasceu no campo.
Em 2025, submetemos ao CNPq o projeto Conexões sustentáveis, literacia e soberania digital nas comunidades Mebêngôkre-Kayapó: Observatório Internacional, na chamada PICTI 2025 (Faixa 1, Projeto em Cooperação). A aprovação veio em 2026, com implementação prevista para junho e duração de 24 meses. A iniciativa reúne 17 instituições de cinco países: Brasil, França, Estados Unidos, Portugal e Colômbia.
Mas a origem desse trabalho não está em editais nem em reuniões acadêmicas. Está na experiência acumulada em território.
A pesquisa começou em 2020, a partir de um estudo piloto desenvolvido por mim em parceria com a Profa. Dra. Laura C. Zanotti, da University of Cincinnati, e o Prof. Dr. Richard Pace, da Middle Tennessee State University. Naquele momento, acompanhávamos a chegada da internet de alta velocidade às aldeias Mebêngôkre-Kayapó, na Terra Indígena A’Ukre, no Pará, onde eu atuava como a pesquisadora especialista em tecnologia.
Apesar da pandemia, antevimos ali que a digitalização avançava rapidamente, sem consulta prévia, sem protocolos éticos e sem qualquer debate sobre o que aquelas comunidades desejavam, ou não, transformar digitalmente, então, entre 2020 e 2022, estruturamos a base empírica e conceitual que sustentaria o projeto.
Em 2022, convidei a Profa. Dra. Lucia Santaella, da PUC-SP a construir conosco um projeto maior e foi com ela como proponente e executora institucional (pela PUC/SP), que obtivemos o primeiro financiamento de maior monta, aportado pelo CNPq (processo 420933/2022-0, projeto KUBEN), consolidando assim uma nova etapa da pesquisa. Dessa trajetória resultaram o livro Amazônia Digital (Educ, 2024), escrito em coautoria com Santaella, e um conjunto de dados longitudinais construído ao longo de 4 anos, hoje convertido na principal base empírica do observatório.
O que nasce hoje, o Observatório Internacional em Colonialismo Digital parte de uma hipótese simples, mas difícil de ignorar: o que acontece na Amazônia quando tecnologias como a Starlink chegam sem mediação ética não é exceção. É apenas a face mais visível e documentada de um processo que atravessa periferias urbanas, favelas e territórios rurais em diferentes regiões do Sul Global. Estudar os Kayapó, nesse sentido, é também estudar as estruturas contemporâneas de poder digital.
O projeto reúne pesquisadoras e pesquisadores da UFPA, UFMG, UFG, UFBA, UNIFESSPA, EHESS, Sciences Po, Institut Mines-Télécom, ESSEC, University of Cincinnati, Middle Tennessee State University, MAST (Rio de Janeiro) e Universidad Jorge Tadeo Lozano, entre outras instituições.
Assumo a vice-coordenação e sou a responsável pela estratégia de internacionalização da rede. Este é um projeto que nasceu de minhas mãos, mas que foi construído em um patchwork de talentos e compromissos éticos com o apoio de grandes pesquisadores como Lucia Santaella (coordenadora e proponente); Winfied Noth; Laura Zanotti; Richard Pace; André Lemos, Geane Alzamora, entre muitos outros de igual talento e comprometimento.
Entre os principais objetivos estão o mapeamento crítico das infraestruturas de conectividade amazônicas, o desenvolvimento de metodologias interculturais de literacia digital construídas com as comunidades, a produção de conhecimento decolonial sobre soberania informacional e a formulação de recomendações de governança tecnológica voltadas a diferentes contextos do Sul Global.
Parte dessa diferença está na mobilidade internacional prevista pelo projeto. Estão previstas bolsas de formação para pesquisadores indígenas, especialmente mestrandos e doutorandos em formação, com missões acadêmicas de um a três meses em instituições parceiras na França, nos Estados Unidos e em Portugal. Não se trata apenas de circulação acadêmica. Trata-se de deslocamento epistemológico.
Hoje, grande parte do debate global sobre colonialismo digital, soberania de dados e ética da inteligência artificial continua sendo conduzida sem a presença efetiva daqueles que vivem, em seus próprios territórios, os efeitos mais concretos desses processos. Povos indígenas seguem sendo frequentemente tratados como fonte de dados, campo empírico ou objeto analítico. O projeto parte de outra posição: pesquisadores indígenas são produtores de conhecimento, formuladores de teoria e interlocutores centrais de qualquer discussão sobre digitalização em territórios tradicionais.
Quando uma pesquisadora indígena apresenta sua pesquisa fora do Sul Global o que está em jogo não é representatividade simbólica. É uma reorganização, ainda que parcial, das posições históricas de autoridade no campo científico. Durante muito tempo, comunidades indígenas apareceram apenas como aquilo que era descrito. A possibilidade de ocupar o lugar de enunciação altera não apenas quem fala, mas também o que pode ser pensado.
O projeto reúne pesquisadores de diferentes etnias indígenas, e não apenas Mebêngôkre-Kayapó. O ponto de partida é amazônico, mas o problema é mais amplo. Em diferentes regiões do Sul Global, comunidades inteiras atravessam processos acelerados de digitalização sem participação real sobre os termos dessa transformação. Existe aí um conhecimento situado que os modelos convencionais de pesquisa ainda têm dificuldade de reconhecer e escutar.
Por isso, neste projeto, a mobilidade indígena não aparece como dimensão complementar da pesquisa. Ela faz parte da própria estrutura de produção do conhecimento.
O observatório já está disponível online, em português, francês, inglês e espanhol, no endereço amazoniadigital.org.
Mais do que uma aprovação institucional, este projeto representa o amadurecimento de uma pesquisa construída a partir da escuta, da permanência em campo e de relações desenvolvidas ao longo de seis anos. O centro de tudo continua sendo o território. E é para ele que o conhecimento produzido precisa retornar.
Dr. Kalynka Cruz
Maio de 2026
Grupo de Pesquisa Amazônia Digital · CNPq nº 789828 · FACOM/PPGCom · UFPA